Se uma pessoa que consome diariamente um maço de cigarros a um preço médio de R$ 5,50 deixasse de fumar por um ano, poderia economizar R$ 2.007,50 Foto: Roberto Scola / Agencia RBS Há 18 anos, a auxiliar de enfermagem Vênia Maria decidiu abandonar o cigarro. Na época, o irmão dela – que também era fumante – estava internado para tratar um câncer no palato e ela foi ao hospital para visitá-lo. Durante a visita, ele pediu para fumar um cigarro. Vênia atendeu o pedido e, quando colocou o cigarro na boca do irmão, percebeu que ele não conseguia mais tragar. “Foi quando eu pensei: eu tenho filhos para criar e tenho saúde, eu acho que é a oportunidade que Deus está me dando de não fumar mais”, conta. E depois de quase 30 anos fumando quase dois maços de cigarros por dia, ela conseguiu parar de fumar definitivamente.

Hoje, aos 62 anos, Vênia se sente mais disposta e resistente do que quando era fumante e acredita que acompanhar a doença do irmão fez com que ela tivesse mais coragem para abandonar o vício. A auxiliar de enfermagem conta que o uso de bebidas e cigarro agravou o estado de saúde dele, que faleceu na mesma semana em que ela decidiu parar. “E se eu tivesse continuado a fumar, eu não estava mais aqui, já tinha ido”, diz. Essa conquista de abandonar o vício é aonde o professor Raphael dos Santos, de 27 anos, pretende chegar. Há cerca de dois anos ele, que fuma cerca de 20 cigarros por dia, luta para conseguir parar. A motivação maior era acabar com a dor no peito que ele sentia.

Na época da primeira tentativa, ele tinha 25 anos e parou de fumar por conta própria. Conseguiu ficar um dia e meio longe do cigarro, mas acabou voltando. Aproximadamente um mês depois, ele fez a segunda tentativa; desta vez, optou por usar adesivos transdérmicos de nicotina. Passou três dias sem os cigarros, mas, outra vez, voltou a fumar. “A dor no peito já havia passado, e o hábito falou mais alto do que a necessidade”, conta. Hoje, ele continua fumando, mas não descarta a possibilidade de tentar abandonar o vício novamente.

O caso de Raphael, assim como o de muitos brasileiros, é mais comum do que se imagina. De acordo com a pneumologista Clarissa Biagioni Silveira, coordenadora do ambulatório antitabagismo do Hospital Júlia Kubitschek, em Belo Horizonte, parar de fumar não é tarefa simples e são necessárias, em média, de três a cinco tentativas para que a pessoa deixe o cigarro definitivamente. A pneumologista explica que o tabagismo é uma doença crônica, que está sustentada por três fatores: a dependência física da nicotina, o condicionamento e a questão emocional, o que torna ainda mais difícil abandonar o vício. Por isso, segundo Clarissa, para que uma pessoa deixe de fumar, além da questão orgânica, é necessário tratar os aspectos psíquicos. “É preciso deixar claro para o paciente que ele não está sozinho, que ele está investindo em saúde e que há doenças graves causadas pelo cigarro”, afirma a pneumologista.

O fumo está associado à, pelo menos, 50 tipos de doenças pulmonares e extrapulmonares. De acordo com o pneumologista José Geraldo Maciel, a mais comum delas é a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (Dpoc), que pode se manifestar na forma de bronquite crônica ou enfisema, causando uma inflamação crônica nas vias aéreas e o espessamento dos tecidos, o que diminui o espaço para a passagem de ar e leva o fumante a ter sensação de cansaço com frequência.

Além das doenças pulmonares, fumar também pode causar problemas circulatórios e câncer. “Mais de 90% dos casos de câncer de pulmão estão relacionados ao tabagismo, além de outros tipos, como o câncer de bexiga, de boca e de laringe”, explica o pneumologista.

Em Belo Horizonte, o ambulatório onde Clarissa trabalha atende apenas pacientes que já estejam em tratamento no Hospital Júlia Kubitschek e precisem parar de fumar. Mas, segundo ela, o Sistema Único de Saúde (SUS) também oferece tratamento aos fumantes que precisam de acompanhamento médico para deixar o cigarro, de acordo com os métodos do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e em parceria com as prefeituras.

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte (SMSA), durante o acolhimento de pacientes nos centros de saúde da capital, os profissionais são orientados a perguntar se eles são fumantes, ex-fumantes ou não fumantes. Caso o paciente afirme ser fumante, ele é incentivado a deixar o cigarro por meio de uma abordagem breve, que consiste em uma conversa com um profissional de saúde e na entrega de um folheto com orientações para deixar o cigarro.

Ainda de acordo com a SMSA, se a abordagem breve não for suficiente, é indicada ao paciente a Terapia Cognitivo-Comportamental, que tem duração de um ano e consiste em reuniões em grupos de até 15 pessoas, coordenadas por dois profissionais capacitados, e com uso de medicamentos como adesivos transdérmicos de nicotina e bupropiona.

Segundo Clarissa Silveira, o índice de abandono do cigarro entre os pacientes que fazem o tratamento é de 30%, mas esse número pode variar e aumentar de acordo com a dedicação de cada um. “O que a gente vê é que, a partir do momento em que o paciente percebe que tabagismo é doença, ele para de sentir culpa e vai em frente no tratamento. Além disso, a autoestima fica boa, porque ele percebe que está conseguindo uma coisa difícil”, afirma.

Fonte: Jornal o Tempo